quarta-feira, 17 de junho de 2026

Mais do que um estímulo à saúde, o esporte é um lugar onde construímos nossa identidade

Um dos temas mais consolidados pela ciência da saúde humana é o efeito positivo da prática esportiva sobre o corpo e a mente. Sabemos, de cor, que o exercício físico regula os níveis de cortisol, otimiza a neuroplasticidade via liberação de BDNF (Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro) e atua diretamente na modulação de neurotransmissores como a dopamina e a serotonina.

Nada disso é novidade, e seria redundante reafirmar aquilo que você já lê em qualquer fita métrica ou rótulo de suplemento. Por esse motivo, a reflexão que podemos buscar se refere a o que acontece com a estrutura do nosso “Eu” quando submetemos o corpo ao estresse deliberado do esporte.

A lógica do crescimento

No senso comum, o desenvolvimento pessoal e a maturidade emocional são associados a momentos de introspecção, calmaria e silêncio — o recolhimento como via de evolução. No esporte, contudo, essa lógica está invertida. Nesta dimensão o progresso não ocorre na ausência do atrito, mas rigorosamente através dele.

Estamos falando de uma evolução mediada pelo sofrimento controlado. Para a hipertrofia muscular, exige-se a microlesão tecidual. Para a redução do pace na corrida, a tolerância ao limiar de lactato. Para a evolução no jiu-jitsu ou no futebol, a exposição física e o erro técnico exposto. No ambiente esportivo, o progresso é indissociável de um estímulo estressor.

Ao lidarmos com essa carga, não estamos apenas empurrando pesos ou correndo contra o cronômetro, estamos também testando as fronteiras da nossa própria capacidade cognitiva. O esporte nos obriga a acessar um estágio até então desconhecido sobre nós mesmos. Sob alta exigência física, a racionalidade dá lugar a mecanismos mais primitivos e viscerais de enfrentamento e, neste ponto, uma nova persona emerge.

Da elite ao cotidiano

A psicologia social há muito estuda a multiplicidade do “Eu”. Somos uma versão de nós mesmos no ambiente familiar, outra nas negociações corporativas, uma terceira nos círculos de intimidade e assim por diante. No esporte, a fragmentação da identidade atinge seu ápice em muitos casos.

Em 2003, enfrentando o colapso de sua reputação pública e severas crises na vida pessoal, o astro do basquete Kobe Bryant percebeu que a contaminação emocional destruiria sua performance. A solução foi a criação de um alter ego, a Black Mamba.

Deste modo, Bryant não entrava em quadra como Kobe, o homem sob os holofotes do julgamento, mas como uma persona focada, impenetrável e cruel, cujo único objetivo era a eficiência técnica e a destruição tática do adversário. Assim, ele blindou sua mente contra ruídos externos.

[Ruído externo / crise pessoal]

[Filtro do alter ego]

[Performance isolada]

Guardadas as devidas proporções de escala, pressão midiática e volume de treino, o atleta amador que busca a corrida de rua às seis da manhã ou a musculação após um dia exaustivo de trabalho opera sob o exato mesmo fundamento psicológico de Bryant. O indivíduo que amarra a faixa do quimono ou calça o tênis de responsabilidades corporativas precisa, deliberadamente, “desligar” o Eu fragilizado pelo cotidiano para ativar uma persona capaz de suportar o desconforto físico.

Como toda resposta repetida vira um traço, todo traço, com o tempo, ajuda a formar uma identidade.

Nossa arena de construção

Olhar para o esporte apenas como um hábito saudável é enxergar só metade da paisagem. É um diagnóstico correto, claro, mas que ignora o principal. A atividade física não serve só para ajustar as taxas do nosso organismo, ela funciona como um dos poucos lugares em que ainda podemos testar quem somos e não sabemos.

É no treino, na competição, na rotina, na disciplina e até na renúncia que muita gente aprende quem é ou quem consegue ser sob pressão, que a teoria sobre nós mesmos desaba. O esporte tem essa capacidade de traduzir conceitos abstratos em realidade nua e crua.

Fora da arena, podemos nos considerar disciplinados, resilientes ou focados. Lá dentro, sob o efeito do cansaço, essas palavras perdem o peso se não forem transformadas em movimento. Você não pensa sobre sua resiliência, você a encara na última repetição ou no quilômetro final. Essa questão muda a forma como nos olhamos no espelho no dia seguinte.

Ao escolher o desconforto e entender que somos capazes de habitá-lo, reconfiguramos nossa própria identidade. Despidos dos nossos cargos corporativos, dos papéis sociais e das validações abstratas do dia a dia, o esporte nos devolve à nossa versão mais consciente.

É onde descobrimos quem realmente sobra quando o corpo pede para parar, mas, por alguma razão que só a nossa mente entende, a gente decide continuar.

Lucas Chagas é psicólogo clínico (CRP-08/47311) com ênfase em psicologia esportiva. Seu trabalho foca no desenvolvimento integral da personalidade e da cognição, conectando o refinamento da performance ao bem-estar e à saúde mental. Realiza atendimentos presenciais em Umuarama e consultas na modalidade online. Para agendamentos e informações, entre em contato pelo telefone/WhatsApp: (44) 99850-6594. Siga o seu perfil no Instagram: @hanseipsicologia.